Os filhos: as meninas aliciadas para serem freiras, pela tia Irmã Samuela, com apoio maior da mãe.
A arte: a música para o pai era o seu hobby, após o trabalho... Além de ser maestro do coral na comunidade de igreja em Linha Catarina, tinha em casa o harmônio. Ele tocava um pouco e contávamos com ele, ao redor do órgão, após o serviço do dia, enquanto a mãe fazia o jantar.
Aí começa a mostrar-se o “mistério da mão do Alto”... Um anjo estava no meio de nós... o “Josepche”, o José... loiro, cabelos em cachinhos... cantava solo para o pai: “Maria zu lieben”. O pai se emocionava. Era a paixão do pai... sua voz criava momentos angelicais em casa. A mãe se emocionava.
Mas os tempos tem de tudo. Era época de 1930 e depois. Lembro que o pai falava em “Refluzion”... eu não entendia nada. Só nos fazia mêdo. Era a Revolução de 30 de Getúlio...
Lembro que o pai colocou um quadro de Getúlio na parede, em São Pedro, para não “dar problemas”.
Mas o Calvário estava para começar. Tudo passa... e nosso pequeno Paraíso também passou...
Apareceu uma epidemia. (Não sei onde começou). A catapora! Em nossa família, parece que todos se contagiaram, menos a vó.
Eu estava morre não morre. Muita febre. Muito atacado. Me vestiam camisas de manga comprida dos mais adultos e fechavam a ponta das mangas, para não arrancar a pele de dentro da boca, cheia de bolhas.
O mais aatacado era o “Josepche”... sem socorro médico. Vacina, na época, não se conhecia. Tudo era na sorte...
O irmãozinho José faleceu. Imagino o sofrimento do pai e da mãe.
Aumentou sua dor a forma das exéquias... O padre não apareceu. A comunidade com medo do contágio se afastou de todo. O pai recebe ordem de enterrar o filho sem cerimônias. O cemitério era perto de casa. Me lembro da emoção ao fecharem o caixão; eu estava com febre alta... também em perigo.
O pai, sem apoio de ninguém, ninguém apareceu. Foi difícil. Até a freguesia de alfaiate deve ter-se afastado.
Foi então que o pai viajou a São Pedro – Kappesberg, à procura de seu irmão, nosso tio “Onkel Jakô”, de certo para buscar outro futuro. Penso na idade do pai nesse impasse... Como sair dessa?
Só que sabemos pela história que nessas alterações de localidade e de profissão, i.é, de alfaiate em Linha Catarina para industrialista de fabricação de queijo em São Pedro, ele entrou numa “fria”, ficou com um “pepino” desesperador nas mãos...
No final desta história, eu já tinha 11 anos e o entendia de forma melhor. Não vou entrar em julgar detalhes. “Não julgueis”, diz o Senhor.
Não se sabe se o negócio que o pai assumiu nasceu de “reta intenção” dos vendedores, ou se eles aproveitaram a situação difícil do pai, para passarem o pepino deles para as mãos do pai. Deus o sabe.
Então o pai comprou da Firma Comercial Irmãos Hartmann e Cia., que o tio Jacó representava.. Vendeu em Linha Catarina. Pagou em parte o tio e ficou devendo uma parcela.
Não esqueça que um homem é forte como o pai, tendo a seu lado uma mulher de igual calibre. E então nos mandamos para São Pedro – Kappesberg.
A mudança para São Pedro... imaginem a festa para nós gurizada. Eu com 8 anos, em fevereiro de 1937, conforme carta de Elisa recebida da irmã Samuela... José falecido, teria 6 anos. A Flora com 4 anos e o Benno com 2 anos. Oscar e Melchior ainda não nascidos. Mais o Ivo e o Isodoro, Alma, Irene e Elisa preparando-se para o convento. O Normélio levou nosso burro, o “Anton”, em montaria para São Pedro. Nós crianças sentíamos o clima pesado na vizinhança por que íamos embora.
O pai era fantástico. Organizou tudo para a mudança. Até nós gurizada fomos dormir a última noite na casa do tio Alexandre Weschenfelder. Lembro a tia fazendo a janta: bolinhos. Claro. Sem luz elétrica, de lampeão. Na sala o tio ficou descalço... o soalho um brilho. Vimos antes da noite os rolos de fumo no galpão, pingando a nicotina preta. Após o jantar, fomos dormir. Tudo novidade.
No dia seguinte, a partida tão esperada. Cedo, o tio Jacó Müller veio de carroça nos buscar para nos levar até o trem em Cafundó, levando na carroça a bagagem da mudança. O embarque seria às 8 horas. Uma viagem histórica. Não me lembro de tudo que estava na carroça. A carga era completa. Quando chegamos pela estrada em Vapor Velho, terra de areia, lembro que nós gurizada observamos como os bois faziam força, chegando a arredondar suas costas – “krumme Buckele” – enquanto as rodas da carroça penetravam fundo na areia, tornando difícil e pesado para os bois.
Chegamos a Cafundó, na estação do trem, que na época a máquina do trem era a lenha e expelia muitas fagulhas para dentro dos vagões. As pessoas tinham que cuidar muito para não queimar a roupa que vestiam, pelas fagulhas do trem. O trem puxava uma meia dúzia de vagões: o 1º atrás da máquina era para frete, depois um vagão postal de poucas janelas e depois o primeiro vagão de passageiros, mas da 2ª classe e por fim um ou dois vagões de 1ª classe, que por dentro tinham poltronas forradas e tinham menos risco de fagulhas, pois estavam mais longe da máquina. Nós viajamos, claro, na 2ª classe. A mudança foi carregada, tudo bem organizado.
Partimos. Que viagem! Que festa! Olhando pela janela... tudo passava... em “televisão” da época.
“Das Wandern ist der Lermens Lust”!
Às 10 horas da manhã chegamos a Salvador do Sul, estação do trem. Em Linha
Bonita a sensação de passar por dentro dum morro, pelo tunel. Foi esplendido.
Quando dentro do túnel, o trem acendeu luzes dentro dos vagões, mas luz elétrica, coisa nunca vista por nós, só conhecíamos a luz dos lampeões.
Chegamos a São Pedro. O pai tudo organizara. Um caminhão trouxe a mudança da Estação até à nossa moradia no Kappesberg.
Em São Pedro, nos inícios
Aqui começa um tempo dos mais difíceis em nossa família. Graças aos dons com que nosso pai era prendado, tudo se encaminhou para um bom término. Certamente foi como ele dizia: “Die Mamai hot och viel gebet”.
Imaginem a coragem do pai: um simples alfaiate de Linha Catarina, passou a ser um industrialista, fabricante de queijo, numa terra, sem comércio, sem mercado consumidor, sem tecnologia. Nunca vi o tio vendedor lá na fábrica para ensinar no começo.
O pai e o abnegado Normélio se aventuraram. Com isso, Nicolau Lermen foi o primeiro fabricante de queijo em São Pedro.
Só vou referir alguns detalhes com fabricação:
A coleta do leite pelo Normélio foi no lombo do burro “Anton”. Colocava o “Holzbock” – sela de madeira, no lombo do burro, pendurava nele as latas vazias para o leite e lá se ia o Normélio às redondezas: Linha Francesa, Babilônia, Linha Pimenta, Campestre e outros lugares, no frio do inverno, cedo... às 10 horas da manhã o leite tinha que estar na fábrica.
O leite recolhido, em tôrno de 300 litros, ia para um tacho com fogo embaixo; o Normélio adicionava o fermento, mexia o leite até coalhar e depois colocava a coalha em panos, e estes com a coalha em formas redondas, que eram colocadas em prensas improvisadas, imaginem, contra o forro, que vinha a ser o assoalho do andar de cima da casa... Dessas formas saíam as sobras – os “Käsrimcha”, que nós levávamos à escola, para no recreio os negociarmos com os Gossler por bananas. Depois, à tarde, os queijos eram tirados da forma e colocados nas prateleiras, para secarem por 8 a 15 dias. Essas prateleiras ficavam na parte dos fundos da fábrica.
Fazia-se também o controle da qualidade do leite para fiscalizar os falsificadores que colocavam água no leite...
O leite, em parte, era desnatado para não engordurar demais o queijo e a nata era também vendida em Porto Alegre.
Aqui surge a página talvez de maiores sofrimentos nessa empreitada do pai como fabricante de queijo.
Criou-se um sistema de administração do negócio, da seguinte forma: a) O colono fornecia o leite e o pai lhe levava a crédito no comerciante com armazem, Raymundo Hartmann.
b) O pai entregava ao mesmo comerciante o queijo já acondicionado em caixotes de mais ou menos vinte peças de queijo, os quais o comerciante levava a Porto Alegre, e o valor da venda era creditado ao pai no armazém, para nós comprarmos os nossos alimentos. Os colonos, nem o pai, viam a cor do dinheiro... Tudo ficava na mão do “turco”. Esse era o apelido do comerciante.
O pai perguntava de vez em quando ao turco sobre o andar das contas. Ele sempre dizia: “Seu Nicolau! Tudo “alles blau”. Sem problemas. O pai se animava.
Mas um dia, passados mais ou menos 3 anos já de atividade, o pai resolveu exigir um balanço de verificação. Trabalharam 3 dias... Lembro-me que o pai chegou em casa, já era noite, falando só com a mãe. Eu não entendia. A Alma me explicou mais tarde. O pai na fabricação do queijo tinha um grande prejuízo, pelos apontamentos de contrôle do turco.
Pergunta-se: “Até onde tinha honestidade na manipulação do negócio, ao administrá-lo dessa forma?”
“Não julgueis!”. É a palavra de Deus... e assim seja.
A reação do pai foi de Homem!
Aos poucos pagou toda a dívida ao turco, vendeu até o harmônio e foi às vezes trabalhar no chiqueiro da criação de porcos do Turco.
Mas nesse tempo, por outro lado, a mão do alto ajudou... o pai, sem dinheiro, apelou a um amigo, o Jacó Käfer. Este lhe emprestou dinheiro, e assim o pai voltou a trabalhar como alfaiate.
E foi melhorando tudo. A freguesia voltou. Recebeu a costura dos fardamentos do Colégio Santo Inácio e até de Viamão.
Passamos então os anos mais harmoniosos na família.
(Entre as fotos do site há algumas fotos relacionadas com esta história).